Os predadores e o pecado. Demasiadas imagens.

O povo armado com o seu telefone esperto não recua perante nada. Duas singelas florinhas a emergir da calçada e tumbas, sacam da arma. Trrch trrch. Um palco, umas luzes, a super lua que só vai haver daqui a não sei quantos milénios, trrch trrch. Como já ninguém se lembra da piada dos anúncios a champôs nem o ingénuo pôr-do-sol escapa, trrch trrch. Nós a curtir, línguas de fora, os gestos nos dedos todos iguais, trrch trrch. Aquela luz que quando lhe dá de certa maneira fica irresistível, trrch trrch. Porrada? trrch trrch. Polícias em stress? trrch trrch. Gatinhos, cãezinhos e bebézinhos em poses giras, trrch trrch.

Todos estes dispositivos extraordinários que nos ocupam os dedos deveriam vir com uma etiqueta (sticker, se calhar é melhor pôr assim) a dizer: o excesso de imagens pode provocar a cegueira. Os índios lá sabiam quando diziam que a fotografia roubava a alma das pessoas. Porque é uma evidência. E é tão difícil que o mundo produza um Bom fotógrafo. Mesmo esses são sempre algo ladrões mas, acredito piamente, sempre pelo «bem maior». É ver a extraordinária exposição de Alfredo Cunha na Cordoaria e conferir.

Lembro-me de uma homilia, daquelas, do Padre Tolentino Mendonça. O Evangelho do dia seria a difícil passagem dos Genesis em que Eva alanca com a culpa toda do mundo. Abifou a maçã e ficámos lixadas para todo o sempre, condenadas a parir com dor e o resto. O Padre Tolentino explicava que o pecado maior foi ela ter achado que, de repente, tinha direito à maçã. Que a maçã era para ela e não para si própria – a maçã, a macieira e os seus namoros com o sol, a lua e os ventos. Esta ideia da apropriação indevida do que o mundo nos dá de Graça, aí está o pecado.

Muito interessante também a nova leitura acerca do termo «pecado» que nos dá Frederico Lourenço, esse corajoso e enorme intelectual. O vocábulo grego que lhe está na origem significa «erro», relacionado com o verbo cujo sentido é «falhar o alvo», como explica a páginas 46 do I Volume da sua tradução da Bíblia. Pecar é, pois, (talvez, também) errar o alvo, não acertar. Fazer tudo mal. O luminoso Frei Bento Domingues diz com frequência nas suas homilias imperdíveis que o pecado é «estragação». Que «tirar o pecado do mundo» é fazer deste um mundo melhor. Como? Sendo bondoso, fazendo sempre a perguntinha: «em que posso ajudar?». Porque a vontade de Deus é sempre amorosa: Ele quer a nossa Alegria. «Mas tem a mania de não querer fazer nada Sozinho… precisa de nós», lembra sempre o Frei Bento, para quem a vida é para ser vivida à alentejana: no gerúndio. Vamos sendo, o caminho está sempre em aberto e o que levamos desta vida é, justamente e apenas, a vida que levamos. Tão bonito.

Erro e ilusão são temas que os que pensam estudam há tanto. É a ilusão que conduz ao erro, lá dizia o Platão, e é combatendo a primeira que se ganha ao segundo. Como? Com o conhecimento, o saber. Ideias antigas. Tenho para mim, a quem o pai classificava no seu clássico humor negro de desdém-com-ternura como «cristã-taoísta» (ou seja, alguém um bocadinho perdida e algo disparatada) que aqui, no tema da ilusão e do erro, se encontram as grandes filosofias, místicas e religiões do mundo. A Caridade e a Verdade são tão íntimas no cristianismo (vide a Encíclica de Bento XVI) como a Grande Compaixão e o Grande Conhecimento, no budismo taoísta. Sem conhecimento só há ilusão, ou seja erro e pecado. Sem amor, o conhecimento não serve para nada. Ou como dizia o S. Paulo (em Coríntios:13 https://www.bibliaonline.com.br/vc/1co/13) «se não tiver caridade, não sou nada». De entre as três virtudes maiores como horizonte que atazana os cristãos esta é a maior: está dito.

Em suma, andarmos para aí a apropriar-nos das imagens do mundo sem dó nem piedade nem respeito, é um pecado. E, claro, uma ilusão porque por mais backups em que acomodemos as fotos não é lá que está o punctum (ide rever o Barthes).

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