Em tempo de Quaresma, quando dói aos cristãos a parte essencial da sua fé, impõe-se a figura de Judas Iscariotes, o traidor. Quando se arrepende e percebe que traiu sangue inocente tenta devolver as trinta moedas. Os sumo-sacerdotes desdenham do seu remorso e limitam-se a gerir o capital: como são «preço de sangue» não podem ir para dentro do Tesouro, mas dão perfeitamente para comprar o Campo do Oleiro, «que se chama até hoje campo de sangue» para sepultura dos estrangeiros.
É nisso que temos transformado o Mediterrâneo. E não há maneira de se «rasgar o véu do Templo», um tremor de terra, um eclipse epifânico, um sobressalto interior que páre com esta sangria dos desesperados. Deveríamos talvez identificar os traidores ao projecto Moderno saído do Iluminismo e das Revoluções Francesa e Americana e esfregar-lhes um pano encharcado com aquelas três palavrinhas, por exemplo. Igualdade, Liberdade e Fraternidade, das quais a última é de longe a que pior se cumpriu.