Os meninos e meninas normais

O conflito de gerações e tudo isso. Não éramos nenhuns santinhos e ainda nos lembramos. Ou não? Que maçada esta repetição cíclica dos temas. Torremolinos e os seus desvarios continuam a ser notícia, afinal. Apelo a que nos concentremos nalgum do essencial: money makes the world go round. Como nos recorda o Manuel Falcão, «as viagens de finalistas que se realizam nas férias da Páscoa estão esgotadas há quatro meses e só uma agência, das várias que actuam nesta área, vai levar oito mil jovens para o Sul de Espanha». A agência de viagens das notícias, agora encenada como virgem ofendida, levou mil e tal, ah valente. Quantos adultos a tomar conta? Isso não sei, ninguém disse. O hotel que recebeu o milhar aparentemente tresloucado também sabia ao que ia. Os meninos e meninas que descrevem como normal despejar extintores, vandalizar elevadores e escrever nos corredores têm um tempo de antena inaudito. Os seus escandalizados progenitores também. Estão bem uns para os outros. Bar aberto das 11h às 23h? Como…? Que idades? Estavam exactamente à espera de quê?

Enfim, vale recordar as basezinhas do jornalismo que começam sempre pelo contraditório. É preciso ouvir os dois (ou três ou quatro) lados para indicar uma ideia de conclusão sobre o assunto, sempre a tirar pelo destinatário e não pela manipulação demagoga do escriba. Esteja a razão do lado de quem estiver perde-se uma excelente oportunidade para discutir a qualidade da educação que se está a dar às gerações jovens.

Porque a ideia de que o mundo está doido e no nosso tempo não era nada disto é velha como a Sé de Braga. Todos passámos por ela com os gigantes aos ombros de quem crescemos e estes mesmos jovens também vão passar, se tudo correr bem. Contudo, este magote de petizes malcriados, agressivos e ocos não vem de geração espontânea. Eles são filhos de pais, mães e famílias diversas que traçaram – ou não – nas suas tenras infâncias as linhas do bem e do mal, do certo e do errado. Eles são filhos dos alarves que vemos a tentar «mamar» uma fila de trânsito, vindos lá de trás em segunda ou terceira fila e a querer entrar à força à frente dos tansos parados na bicha à espera da legítima vez. Veêm os pais e mães fazer isto. E insultar as cavalgaduras dos outros, esse inferno. Ouvem lá em casa em loop que são o máximo e assim é que devem ser, «ser como são» que maravilha, que ideia tonta essa de que têm muito para limar e progredir. Não se liga aos críticos, uns infelizes, aos professores, esses chatos que nasceram com uma propensão para a perseguição, aos vizinhos, essa corja de invejosos. É passar à frente de quem quer que seja porque esse é o seu lugar natural no mundo.

É claro que nem todos os educadores são isto. E, sobretudo, que nem todos os jovens são aquilo. Fazem o melhor que podem na estreita margem que uma vida acossada lhes deixa. É o clima social, que quando «pinta» pinta assim. A censura social também se liquidificou, já estou como o Baumann. É pena. Porque: não censurar os cretinos que deixam os cocós dos seus cãezinhos na rua, que furam as filas, que são malcriados com os velhinhos, que não separam o lixo, que não fazem pisca para mudar de direcção – nem que com um breve olhar desaprovador – tudo aparentes pequenas coisas, é da mesma família que não censurar os assassinos terroristas ou os horrorosos «istas» de tantas espécies (machistas, sexistas, sacristas, etecetera). Nos detalhes, que são o diabo, se vê o resto. Chamar-lhes detalhes é sempre um eufemismo, dizem os filósofos há tantos anos.

Em tempos de síntese, um-parágrafo-uma-ideia, 140 caracteres e toca a aviar, talvez o pessoal da bola tenha razão. Tudo se resume numa simples palavra. «Respect». Que é muito bonito. E delicadeza, que não custa nada e reverte sempre em tanto para a troca.

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