Não sei como eles fazem. Mas precisamos de aprender.
Como é que nos põem a salivar com gente horrível que faz coisas tremendas em nome da
Grande Nação Americana? Talvez ajude o facto de serem todos uns borrachos de cair para o
lado, impecavelmente vestidos, a dizerem coisas que quem nos dera no momento exacto com
a expressão (toda, corporal, verbal, facial) certa e a banda sonora perfeita.
Vejamos Scandal, por exemplo. Então o Jake Ballard mata a sangue frio o marido do Cyrus (e
mais duas pessoas, mas quem está a contar?), tenta deixar paraplégico o doce Senador Edison
fazendo a coisa parecer um acidente, envenena o sogro na maior frieza e continuamos
apaixonado(a)s por ele? O chefe de gabinete da Casa Branca, o vil Cyrus, colabora nisto tudo e
ainda tem o melhor discurso interior de todas as temporadas da série, entre outros
demolidores, naquele plano em freeze em que diz tudo o que lhe vai na alma – como fez
tantas vezes com o Presidente Grant, o Fitz – e depois volta ao business as usual como se
nada fosse… e ainda sentimos uma ponta de compaixão por este sacana? «Jake Ballard para
vice-presidente? O tipo que matou o amor da minha vida, que é o Leviatan, a serpente enrolada
aos pés de Satanás?… Sim, é uma óptima ideia».
Os adoráveis, disfuncionais e implacáveis assassinos Huck e Quinn, que fizeram coisas
inenarráveis a limpar a porcaria dos poderosos, os clientes, enfim, da OPA (Olivia Pope &
Associates) e nos merecem uma inexplicável simpatia pela fidelidade canina? A magricelas
Abby, a pupila ambiciosa que não recua perante nada para dar de beber à sua infinita sede de
poder mas que, no último minuto, quando já nos é difícil respirar, afinal retrocede e redime-se
honrando a sua melhor amizade com a Liv? E a Liv, claro, a Olivia Pope que resolve tudo,
sempre, no matter what. Uma Janus que não há meio de se decidir entre aqueles dois tipos
podres de sexy, um é o Presidente dos EUA e outro, Jake Ballard, um boneco estragado,
perigoso e romântico que fica de quatro só de a ver passar. Como é que eles nos apaixonam
por esta gente?
Está bem que se apresentam como «white hats», heróis do Bem, gladiadores de fato. O
argumento de base é que é preciso dar o corpo às balas pela Sala Oval, que a Casa Branca
merece tudo e mais um par de botas. Mesmo se, pelo caminho, todos se transformaram em
traidores à Pátria e aos valores que é suposto a Pátria simbolizar. Mas, quem não gosta de uma
Equipa forte, unida e aguerrida? Quem não teve já um objectivo sério, grande, pelo qual lutar
e não comprometeu uma ou duas coisas pelo caminho? A verdade é que, sem percebermos
como, estamos a vibrar com as eleições e os jogos de poder americanos, graças àqueles
fotogramas de segundo, incrivelmente manipuladores (como todos os personagens da série,
que acabamos por adorar): o aborto da Liv (para aí três frames), os diálogos com o pai-
monstro, os tremeliques do queixo dos dois homens poderosos que a adoram contra tudo e
contra todos, os milimétricos sorrisos da giraça que não sorri. Isto é genial. O diabo é,
realmente, genial.
E isto é, evidentemente, o diabo. Lembro-me de uma conversa, apaixonada, disparatada, com
um amigo acerca do quanto me incomodava o culto do mal que se instalou a partir da década
de 90 do século XX. Sou atenta ao entretenimento, de massas, o cinema e depois a espectacular
televisão. Quase sempre de matriz americana, mas recentemente com uns pontos valentes
marcados pelos nórdicos da Europa, esses branquinhos sinistros (Borgen, A Fraude, A Ponte,
Forbrydelsen/ The Killing). A partir dos anos 90 passámos a gostar de coisas mesmo horríveis,
como Seven (lembram-se?), Fight Club, etc, fora os extraordinários Alien. Apaixonámo-nos pelo
mal. Pela crueza, pela indecência moral, pelo deserto sentimental, pela frieza afectiva. Eu
incluída. Também disse interiormente that’s my girl quando a Liv pareceu vencer o
charmoso e letal pai em mais um dos coelhos que sacou da cartola sem que estivéssemos a
ver. Mas estávamos. Estávamos a ver tudo e eles põem-nos a ver tudo como se fizéssemos
parte. São geniais. E perigosos.
Temos de resistir a isto. Fazer igual ou melhor, mas para o lado do bem (ah ah dirão vocês).
Também me odeio por adorar estes filhos da mãe. E, fica pior: acho que é possível. Bom cinema, audiovisual de requinte. Não
acredito em periferias pré-destinadas e sei que é mesmo possível fazer isto. Só nos faltam as
qualidades, como dizia o Almada. E fazer.
Há que dizer que eu sou aquela rapariga vintage, sempre a sair atrasada na paragem do
comboio no (excelente) anúncio da NOS. Sim, só «entrei» na Guerra dos Tronos para aí na
temporada 4, só li a trilogia Millenium muito depois de sair de moda (evidentemente fui a
primeira a ler o volume 4, escrito pelo outro), enervam-me os fenómenos de rebanho. Que
pretensiosa. Enfim, joga a meu favor o facto de que os bons argumentistas são uns
pretensiosos do caraças.