Do início mesmo, parece que já ninguém se lembra. Após uma insignificante e inválida sondagem junto de amigos, mais e menos apreciadores do Spielberg, críticos e críticas de várias partes do mundo, essa parte apaga-se perante as magnas ideias centrais do argumento (excelente, by Liz Hannah, Josh Singer), do The Post. A liberdade de Imprensa e a importância – e o risco – do jornalismo de investigação como contrapeso do poder e seus abusos. Muito bem. Mas «os pormenores»! Isso que faz do cinema de Steven Spielberg algo de universalmente emocionante.
Então, o início. Vietname, os americanos lá na guerra deles, pantanosa, quente, húmida e fatal. The boys, a pintarem-se as caras de camuflado. A emboscada. Logo esta familiaridade. Parece que a guerra do Vietname é das que mais nos é familiar. Parece mais conhecida ainda do que a guerra verdadeira que vivemos – alguns de nós – aquela que aparece apenas como um sonho esquisito, cujos factos sabemos que apenas deliramos; isto é, não conhecemos exactamente a realidade, só retivemos as emoções. As explosões à porta de casa, os mortos, os pais dos amigos mortos, os A4 manhosos colados com cola de água nas colunas da rua com atrocidades, as conversas em surdina. «As balas a meio corpo» na rua, expressão difícil de não reter. Não, da guerra do Vietname sabemos (achamos) quase tudo. Vimos mais de uma dúzia de filmes magníficos sobre o assunto. Habituámo-nos a empatizar com a dureza nascida no mais fundo dos bons rapazes da parolândia americana forjada pelos horrores vividos, a subtil astúcia letal dos vietcongs, as maravilhas da rádio (gooooood morning Vietnaaaaam) e até com a doçura do cheiro do napalm pela manhã. Tendo em conta que a gravidade dos «papéis do Pentágono» era ocultar que se mandou uma carrada de jovens para morrer numa guerra idiota e consabidamente perdida há pelo menos três administrações, faz sentido, claro. Mas passa num flash.
É o que nos faz regressar aos «pormenores» do Spielberg. A importância que dá às chamadas personagens menores. A tensão é introduzida através do estafeta, do estagiário que vai espiar o New York Times, da filhota de Ben Bradlee a vender limonadas «daquelas feitas com limões», a 25 cêntimos, no meio do stress. Como a miúda de encarnado no preto e branco do Schindler, os sapatos do puto e os dentes podres do Malkovich contra os venenosos japoneses ou a eterna e sempre útil line do Tubarão, «we’re gonna need a bigger boat».
O que me custa a encaixar é o tom condescendente com que certos sábios falam do filme. Ah e tal, o velhote a fazer câmara à mão – que primário-, a querer fazer paralelos rápidos com a actualidade da patética Casa Branca de Trump – que fácil -, ah as fake news e o jornalismo de verdade- que óbvio. Ah. Façam vocês, então, a ver no que dá.
Dá ideia que é perfeitamente normal filmar como Spielberg. O tipo que fez o ET, e os Indiana Jones, Os Encontros Imediatos do Terceiro Grau, e o Tubarão mas que – vejam, vejam muito, pessoal das curtas – quase começou com o Duel, «Assassino pelas Costas». Ok, terá feito também os Jurassic Park, o Hook e A Cor Púrpura, Tintim e o Segredo do Licorne (mesmo fixe) e outros menores, para sustentar a vasta família que criou – e bem, pelos vistos. Já para certos outros, os chamados filmes «sérios» que também fez, custa a adjectivação. O Império do Sol (o Christian Bale nunca mais foi tão intenso), o Always (tão mal amado no seu tempo, tido como piroso, adoro! e continuo a chorar e a rir como da primeira vez, John Goodman, Richard Dreyfuss, Holly Hunter e a maravilhosa Audrey Hepburn forever!), A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, A.I. Inteligência Artificial (tão, tão triste, e ainda o miúdo não via mortos), Relatório Minotitário… mas está tudo maluco?
Caríssimos comparsas de amor louco pelo cinema, tenho apenas a dizer-vos – a começar por mim: «watch and learn». Vejamos e aprendamos. Acabei de ver o The Post e tenho vontade de o ver pelo menos mais duas ou três vezes. Seguidas. Como aconteceu com os Coppolas da minha vida, o One From The Heart, o Apocalipse Now, o Cotton Club, os Padrinhos. Ou os Scorceses. Ou o Paris Texas e os Wim Wenders ou Woody Allens de outros tempos. E os Capras, e etc. Exactamente, quantos filmes hoje nos dão para isto? No meu modesto caso, pouquíssimos.
É como aqueles guilty pleasures que todos temos. Uma tablete inteira e de uma vez, mesmo à alarve, de Lindt 70% negro de laranja bate-se bem com este Spielberg. O estilo convicto e refilão dos jornalistas da velha guarda, que se vestiam de forma «normal» – i.e isso não interessa nada – a magia das rotativas e das grandes gráficas, a redacção ainda sem computadores, a excitação do processo produtivo e do jornal «quentinho» a sair. Enfim, o Tom Hanks e a «sobrevalorizada» Meryl Streep são como aqueles pedacinhos de delírio gustativo que ficam para o fim e redimem toda e qualquer ideia de «deixa lá, amanhã só alface, carpe diem e agora desamparem-me a loja, sim?».